sábado, 10 de maio de 2014

Se não disser agora, nunca direi...

Calças, shorts, blusas, camisetas, tênis... Joguei tudo dentro da mala e a fechei num movimento rápido e brusco. Essa mudança veio em péssima hora. As coisas estavam indo tão bem. Quero dizer, não todas as coisas, mas a maioria delas. O fato é: eu estava bem aqui. Então, meus pais inventam essa mudança sem motivo. Ou talvez até tenha algum motivo, mas realmente não me interessa. Ergo a mala e a lanço para cima da cama, ao lado das outras duas, as quais estão com os meus livros, vídeo game, computador e tudo mais.
Há alguns dias atrás eu até pensava em recomeçar tudo do zero (a verdade é que o fato de algumas coisas estarem bem, não impede que muitas outras estejam ruins), mas esse recomeço eu faria em minha mente, no meu caráter, no meu modo de viver. Eu queria me descobrir de novo, assim como eu já fiz várias vezes, assim como todo pré-adolescente faz.
- Filha, já está pronta? – Ouvi minha mãe gritar.
- Já. – Gritei em resposta.
Me joguei no meu pufe azul e observei meu quarto. A maior parte das coisas já está empacotada. Agora resta apenas meu guarda-roupa, minha cama, meu pufe e várias caixas esperando para serem despachadas. Fechei os olhos e inspirei profundamente soltando o ar pela boca logo em seguida. Abandono, esse é o cheiro que sinto.
Não quero dar adeus a isso tudo. Moro nessa casa desde que nasci e agora, já com 17 anos, tenho que me mudar. Se eu fosse deixar poucos coisas para trás... Mas não. Amigos, família, casa, escola, uma pessoa mais que especial... Toda a minha vida. Ainda de olhos fechados, joguei minha cabeça para trás, apoiando-a no pufe. Senti um lágrima solitária escorrer pelo lado esquerdo do meu rosto, mas logo a enxuguei. Não posso ficar assim. Tem que ter um lado bom nisso tudo, certo? Nada pode ser cem por cento ruim.
Ouvi a porta do meu quarto sendo aberto e me levantei num salto. Me virei para porta e me deparei minha mãe, a qual está apenas com a cabeça para dentro do quarto.
- Querida, saímos daqui a 2 horas. Quer ir a algum lugar antes? – “É claro que eu quero!”, pensei. Tem uma coisa que eu preciso fazer antes de ir, pois, se eu não o fizer agora, eu nunca farei.
- Na verdade, quero sim, mãe.
- Quer que te leve?
- Não, eu posso ir a pé. Obrigada.
- Tudo bem, então. Não demore a voltar. – Esbocei um sorriso em resposta e ela saiu do quarto.
Depois de tomar um banho rápido, penteei meu cabelos loiros e os deixei soltos, contornei meus olhos cor-de-mel com lápis preto e delineador, vesti uma calça jeans, uma blusa preta apertada e um colete jeans e calcei meu all star preto. Peguei meu celular e saí do quarto. Desci as escadas correndo e saí de casa sem avisar a ninguém. Minha mãe já sabe da minha saída, ninguém mais precisa saber.
A casa dele é aqui perto, apenas duas quadras de distância. Não sei de onde tirei essa coragem, só sei que, se eu nuca mais vou vê-lo, tenho que fazer isso... por mim. Hoje o tempo está nublado. De manhã cedo choveu, por isso as ruas estão molhadas. O cheiro de terre úmida vindo dos pequenos jardins na frente das casas invade minhas narinas. O céu cinza dá um aspecto ainda mais deprimente para esse dia que não poderia estar pior. Apesar da chuva, o dia está abafado. Não se tem sinal do frio. Ando a passos lentos, mesmo sabendo que não tenho muito tempo. Mas quero aproveitar essa última oportunidade que eu tenho de andar por essas ruas.
Não demoro a chegar em sua casa. Encaro o grande portão de ferro que me separa da porta de entrada da casa. Agora que estou aqui, não tenho certeza se quero fazer isso. Quero dizer, isso é loucura, dizer o que sente para alguém. Os “e se” invadem minha mente: E se ele não quiser mais falar comigo? E se ele simplesmente me rejeitar? E se ele espalhar para todo mundo e eu virar motivo de piada? E se... E se... E se... Mas, pensando bem, eu não estarei aqui para ver nada disso. Empurro o portão com a mão direita, ainda relutante. Por mais que minha mente diga “Vá!”, o meu corpo grita “Volte!”. Mas eu já sei o que eu quero fazer. E eu vou fazer! Ando a passos ainda mais lentos até a porta. Paro à um passo de distância da porta e respiro fundo. São só algumas palavras. Que mal elas farão? Ergo minha mão com os punhos serrados para bater na porta, mas me lembro do que ele me disse um vez: “Você é de casa. Não precisa bater. [...] A chave fica no vaso da maior planta. Quando quiser, é só entrar.” Fui até o vaso de uma planta com grandes e altas folhas verdes. Ali pude encontrar a chave que eu só usei uma vez. A envolvi com meus dedos. Você pode fazer isso. São só palavras. São só palavras. Abri a porta e entrei. A sala está vazia e silenciosa. Não parece que tem alguém em casa. Lembro-me que ele me disse que seus pais estariam em viagem de negócios ele ficaria responsável pela casa. Olhei na cozinha. Ninguém. Me direcionei até a porta da frente. Quando pus minha mão na maçaneta, ouvi um barulho vindo lá de cima. Pode ser ele. “Ou um ladrão”. Cala-te consciência!
Subi as escadas contando cada passo.
- Pedro? – Chamei. – Pedro, é você? – Já no alto da escada, vi a porta do quarto dele se abrir.
- Amanda? – Pedro disse parecendo surpreso ao me ver ali. Eu sorri.
- Oi. – Foi tudo o que consegui dizer. Ele está vestindo uma bermuda azul, descalço, sem camisa e com seus cabelos bagunçados.
- Pensei que já tivesse ido. – Saiu do quarto e fechou a porta atrás de si.
- Não, eu vou daqui a pouco. – Respondi me aproximando dele.
- Posso te ajudar em alguma coisa? – Pedro parece estar nervoso.
- Hum... Eu queria falar com você. Tem alguns minutos?
- Claro.
- Bom, eu... Bem... Quando a gente... Sabe... – Diga, Amanda. São apenas palavras!
- Está tudo bem, Amanda?
- Para falar a verdade não muito... Eu só não consigo...
- Organizar os pensamentos em frases? – Sugeriu.
- Isso. – Afirmei sorrindo. Ele sempre faz isso, adivinha meus pensamentos. Afinal, ninguém me conhece como ele.
- Tudo bem. – Ele disse mais para si mesmo do que para mim. – Não acha melhor você ir para casa. Quando tiver conseguido se organizar, me liga. Assim podemos conversar com mais calma.
- Não. Eu tenho que fazer isso pessoalmente, Pedro. Se eu não o fizer agora, eu nunca farei e me culparei por isso pelo resto da vida. – Ele suspirou.
- Tudo bem, então. Só não esqueça que você tem um avião para embarcar daqui a pouco.
- Eu sei. – Dei dois passos em sua direção. Estamos agora à um passo de distância. – Pedro, eu... Eu...
- Você...? – Por que você não pode adivinhar mais essa vez?
- Eu não... – Diga, sua estúpida! Eu não vou conseguir dizer. Eu sei que não... Mas não posso deixar que esse tempo que gastei aqui seja perdido. Não ajo mais segundo o meu lado racional, mas por puro impulso. Dou o passo que me separava de Pedro, ponho minhas mãos em sua nuca e o puxo para um beijo. Ele parece surpreso no início, lógico! Mas logo envolve minha cintura e me puxa para si, acabando com o espaço entre nós.
- Pedro, você... Mas o que? – Ouço uma voz feminina vinda de trás de Pedro. Ele me solta bruscamente, me empurrando para longe.
- Melissa, eu posso explicar. – Ele diz para a morena que agora tem nome. Ela está descalça, assim como Pedro, seus cabelos estão amarrados num coque malfeito no alto da cabeça e veste uma blusa masculina que cobre parte de suas coxas, a qual eu deduzo que seja do Pedro.
- Não precisa explicar. Eu já entendi. – Melissa diz e entra no quarto, batendo a porta com força.
- Olha o problema que você me arrumou, garota. – Pedro diz voltando-se para mim, indo em direção a porta em seguida. Meus olhos começam a marejar. Virei-me e corri para fora. É muita informação para processar.

Olho para o céu. Um trovoada, duas trovoadas... Vai chover. Era só o que faltava. Corro, corro e corro. Passo pelo minha casa, mas continuo correndo. Ouço alguém gritar meu nome, mas eu não dou atenção. Continuo correndo. Carros buzinam, desvio de ciclistas e motoqueiros que me xingam, mas eu continuo correndo. Até que tropeço e caio. Quando me levanto, apenas sinto um forte impacto no meu lado direito, vejo um carro vermelho e algumas pessoas com a visão embaçada, então tudo fica preto.

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