O céu já estava escuro. Algumas estrelas brilhavam aqui e ali, quebrando o preto intenso vindo do alto. O amanhecer estava perto. As ruas por onde passaram, ainda vazias, logo estariam cheias de trabalhadores. Vítor dirigia em alta velocidade, o que deixava Sofia nervosa. Ele estava sumido, não deu notícia nas últimas semanas e hoje a acordara com uma estranha ligação no meio da madrugada, a chamando para um passeio. Sofia, mesmo que receosa, aceitou. Vestiu seu casaco cinza, prendeu o cabelo de qualquer jeito e foi ao encontro de Vítor, que já a esperava do lado de fora. E agora estavam ali, passando por ruas que ela não conhecia, indo em direção à parte menos habitada da cidade. Embora Sofia depositasse toda sua confiança nele, sua parte consciente gritava em alerta, dizendo-a para que pulasse daquele carro e corresse para longe de Vítor. Mas ela teimava em acreditar que ele nunca seria capaz de fazer mal algum a ela.
Vítor, ao contrário de Sofia, estava calmo, mesmo que sua expressão demonstrasse preocupação e nervosismo. Mesmo sem olhar diretamente para ela, Vítor pôde sentir o medo de Sofia. Ele não queria que ela estivesse assim, pois, por mais estranho que fosse o convite, eles se conheciam há anos, tinham uma longa história juntos. "O mínimo que se espera disso é um pouco de confiança", ele pensava.
Sofia não havia olhado para ele nenhuma vez desde que estraram no carro. Já Vítor, a olhava pelo canto do olho, para ver sua expressão facial, mas tudo o que via era sua cabeleira ruiva. O silêncio reinava dentro do carro e nenhum dos dois atrevia-se a quebrá-lo.
Sofia estava ficando inquieta, pois o local em que estavam era praticamente deserto, habitado apenas por homens desonestos e abandonados. Quanto mais avançavam, menos luz havia pelo caminho, a quantidade de postes de iluminação iam diminuindo, até que chegou o momento em que os faróis do carro eram a única fonte de luz.
Vítor parou o carro, o que provocou em Sofia uma onda de alívio e desespero. Ele colocou o carro em ponto morto, tirou o cinto de segurança e virou-se para Sofia. Ela permanecia com a cabeça encostada no vidro da janela, olhando para o lado de fora.
- Sofia. - Vítor chamou, fazendo-a levantar a cabeça e olhar para ele. - Você está bem? - Perguntou preocupado, observando sua expressão amedrontada.
- Sim. Só estou com um pouco de sono. Só isso. - Ela respondeu, mas ambos sabiam que era mentira. Ele continuou a observá-la, o que fez Sofia corar e desviar o olhar, o qual antes miravam as duas pérolas verdes que Vítor tinha no lugar dos olhos. - Não vai dizer porque me trouxe aqui? - Ela perguntou olhando para as próprias mãos.
- Ah, sim. Claro. - Ele disse desviando o olhar por alguns poucos segundos, logo voltando a encarar o rosto delicado de Sofia, cobertos por alguns cachos ruivos rebeldes que se desprenderam. - Quero lhe mostrar uma coisa. - Disse finalmente.
- Tudo bem. - Sofia disse sem erguer o olhar.
- Tudo bem mesmo? - Vítor ainda tinha em sua cabeça que ela não tinha confiança nele. E ele não queria obrigá-la a ir em lugar algum. Isso era para ser um passeio agradável. Sofia apenas assentiu e eles saíram do carro.
Andaram em silêncio por alguns minutos. Aquela situação chegava a ser constrangedora de tão estranha. Geralmente, quando estão juntos, silêncio é uma coisa não que existe. Os diversos assuntos surgem de todos os lugares e sempre geram risadas. Mas dessa vez era diferente. Sofia estava com medo demais para conseguir dizer alguma coisa e, mesmo que conseguisse, não queria correr o risco de irritá-lo, pois ele poderia fazer-lhe mal. E Vítor não queria correr o risco de assustá-la ainda mais, pois o medo já estava estampado em seu rosto. Para Sofia, a aparência daquelas ruas só deixavam toda aquela situação mais amedrontadora: casas abandonadas, nenhuma iluminação, uma escuridão sinistra, sem falar nos barulhos estranhos e frequentes.
- Chegamos. - Ele informou.
- Era isso que queria me mostrar: um portão de ferro? - Eles estavam diante de um portão de ferro que tomava conta de quase toda parede e não os deixava ver o que tinha por trás dele. Ele sorriu.
- Paciência gafanhoto. - Sofia revirou os olhos e Vítor riu de sua impaciência, o que a fez relaxar um pouco.
Vítor a afastou gentilmente do grande portão e o abriu.
- Uau! - Exclamou Sofia.
O lugar não era muito grande, nem muito bonito. Tinha um aspecto abandonado e cheiro de mofo. Tudo o que continha ali estava coberto de poeira e teias de aranha. Mas o que chamou a atenção de Sofia não foi o local em si, mas sim a bela vista que eles tinham dali. Somente naquele momento ela percebeu que eles haviam subido durante todo o caminho. E dali de cima, era possível ver toda cidade.
- Eu venho aqui desde que tinha 8 anos. - Vítor disse a acompanhando até a beirada, de onde teriam uma visão mais ampla da cidade.
- Por que nunca me contou?
- Porque eu precisava de um lugar só meu. Tudo o que eu tenho eu divido com alguém, até mesmo os meus segredos. Eu sentia falta de ter alguma coisa só minha.
- E por que resolveu me mostrar isso agora? - Sofia perguntou desviando seu olhar da cidade, e voltando-o para Vítor, o qual estava com o olhar fixo no horizonte.
- Porque está na hora de eu dividir tudo o que tenho, pois daqui a alguns dias nada mais será meu. - Ele respondeu, sem nunca desviar o olhar da cidade. Esse diálogo, ainda que pequeno, já estava assustando Sofia.
- O que quer dizer com isso? - Ela perguntou, ainda que tivesse medo da resposta. Vítor ficou em silêncio por alguns segundos, então suspirou e finalmente respondeu:
- Eu vou embora, Sofia. - Essas palavras a atingiram como um soco no estômago.
- Embora? Mas para onde? Por quê? Seja onde for eu vou com você. - Disse decidia e desesperada.
- Ah, Sofia! - Ele sussurrou abaixando o olhar. - Você não pode ir comigo. - Completou.
- Mas você vai voltar, não é? - Vítor, ainda de cabeça baixa, soltou um riso fraco e balançou a cabeça em negação.
- Essa é uma viagem sem volta, Sofi. - Ele a chamou pelo apelido pela primeira vez na noite. A garganta de Sofia se fechou. Ele era seu único amigo, seu primeiro amor. Ela tentava segurar as lágrimas, mas elas eram teimosas e acabaram por vencer e rolarem por seu rosto.
- Como você pode me abandonar assim? Depois de tudo... - Ela gritava. Sua voz saiu estranha e embargada.
- Eu não tenho opção, Sofia. - Ele alterou a voz e virou-se para ela. Vendo seu rosto encharcado pelas lágrimas, suavizou sua expressão e suspirou profundamente, buscando acalmar-se. - Sofi... - Sussurrou acariciando seu rosto com a mão direita, enxugando suas lágrimas. Ela fechou os olhos, aproveitando cada momento de seu toque. - Você precisa me ouvir. - Completou no mesmo tom de voz. Era difícil para ele dizer aquilo. Mas difícil do que qualquer coisa que ele já fizera na vida.
Ela era a pessoa mais especial da vida dele. Quando todos viraram as costas para ele, o vândalo, o sem futuro, aquele que todos achavam que não tinha mais esperança de melhora, ela chegou e o mudou. Ela viu o lado bom no meio de todo aquele mal. E agora tinha que abandoná-la, deixá-la sozinha. Ele devia muito a ela, mas nunca teria a chance de pagar. Ele, já angustiado por não conseguir encontrar as palavras certas, a puxou pela cintura e a beijou. O beijo mais intenso e apaixonado que eles já deram. O melhor de todos, com certeza. E provavelmente, um dos últimos. Vítor separou seus lábios e a abraçou.
- Eu estou morrendo, Sofi. - Sussurrou em seu ouvido. O coração de Sofia parou naquele momento. Ela queria acreditar que tinha escutado errado. Saiu do abraço e observou o rosto de Vítor. O sol nascente refletia na metade do rosto de Vítor, fazendo seus olhos parecerem mais claros do que realmente são.
- Morrendo?
- Eu tenho câncer, Sofi. Estou em estado terminal. - Ele disse sem olhá-la.
- Por que não me disse antes? - Sua voz quase não saía, pois as lágrimas ameaçavam cair novamente.
- Não queria te preocupar, nem te assustar. Queria que nossos últimos dias fossem normais e especiais. Queria esquecer dessa maldição quando estivesse com você. - Agora Vítor que estava quase chorando. - Nessas últimas semanas, eu preferi ficar sozinho para tentar descobrir como te contaria isso. - Ele finalmente cedeu e deixou as lágrimas rolarem. - Se eles estiverem certos, eu só tenho mais essa semana de vida. - Agora ela é quem secava as lágrimas dele.
- Eu sinto muito. - Foram as únicas palavras que ela encontrou para dizer. Ele a abraçou novamente e disse em seu ouvido:
- Você foi meu primeiro amor, Sofia. E também será o último.
sexta-feira, 16 de maio de 2014
Primeiro e último amor
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