Vestiu-se com um shorts jeans rasgado e uma regata preta, calçou seu all star preto surrado, fez um coque frouxo em seus cabelos castanhos claros, jogou o celular e as chaves dentro de uma bolsa qualquer e saiu. O dia estava calmo: ruas vazias, sem aquela multidão costumeira, nada de carros, nem motoristas estressados por causa do trânsito. Apenas ciclistas e alguns poucos pedestres. O sol brilhava na imensidão azul. Seria um bom dia para fazer uma visita, ainda que breve, a casa de praia de seus pais. Mas, infelizmente, não tinha dinheiro para fazer tal viagem, pois gastara todo o seu salário fazendo compras. "Eu precisava de roupas novas.", justificava-se. A verdade é que Débora Ferraz é a garota de 22 anos mais irresponsável do mundo, economicamente falando. Porém, ainda que seus pais, amigos e parentes lhe dissessem e repetissem isso, ela insistiu em ir morar sozinha.
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Ele procurava desesperadamente as chaves do carro. Como pôde esquecer onde guardara as chaves? Isso o fez sentir falta da época em que morava com a mãe. Ele tinha que sair de casa naquele exato momento, pois estava atrasado para o primeiro dia de faculdade. Depois de muito procurar, decidiu ir a pé mesmo, afinal, não era tão longe assim. Mas, mesmo não sendo tão distante, ele teria que correr, e muito. Pegou a mochila e saiu correndo em direção ao elevador. Apertou o botão uma, duas, três, milhares de vezes e nada de o elevador aparecer.
- Vou pela escada mesmo - disse para si mesmo, correndo para a escada em seguida.
Por sorte morava no terceiro andar, logo, não demorou muito a chegar no térreo, embora, ainda assim, estivesse ofegante.
Sam Mendez não era fã de atividade físicas, mas sabia que precisava sair do sedentarismo, pois ir a pé para os lugares estava virando rotina.
Pegou o caminho do parque, o qual costuma ficar vazio nas manhãs de quarta-feira, assim, não precisaria prestar tanta atenção para não esbarrar nas pessoas no seu caminho.
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Embora parecesse, Débora não era essa garota alegre que todos pensavam. Lá no seu íntimo, ela lamentava ter perdido aquilo, ou melhor, aquele que era tão importante para ela. Ah, como ele fazia falta no seu dia-a-dia. Mesmo que não se vissem todos os dias, se falavam em quase todos. E na época em que ainda tinham contato um com o outro, ficar sem falar com ele era como não poder respirar. E então ele se foi. Não se sabe para onde, não se sabe porquê. Ele simplesmente desapareceu. Não respondia as mensagens, não atendia nem retornava ligações... Era como se nunca tivesse existido. E, mesmo que isso tivesse acontecido há anos atrás, ainda doía, pois, depois dele, Débora nunca havia se apaixonado por mais ninguém.
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"De volta ao lar", Sam pensou enquanto passava em disparada por uma árvore. Estar de volta a cidade onde nasceu era realmente muito bom. Lhe despertava lembranças de uma ótima vida. Lhe despertava lembranças dela. Sam parou e se escorou em uma árvore, a mais velha de todo o parque, ofegante. Débora, Déh. Era dela que sentia falta, da sua morena. Lembrava-se bem do dia que saiu da cidade. Ele não queria que tivesse sido daquela forma, mas depois da morte de sua mãe, ele não aguentou, entrou em um caso grave de depressão. Seu pai foi orientado a levá-lo para longe de tudo o que pudesse lembrar sua mãe. E então ele foi levado para a casa de sua tia, onde foi proibido de manter contato até com o próprio pai, o qual achava um tratamento um pouco radical, mas faria tudo para o bem de seu filho.
Sam balançou a cabeça para afastar o pensamento e continuou sua corrida, pois agora já estava muito, muito atrasado. Somente com sorte entraria na faculdade.
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A praça estava vazia, assim como havia previsto. Seu passeio seria tão tranquilo quanto desejava. Mal sabia ela o que o destino havia lhe preparado para hoje. Ela caminhava calmamente pela pista de corrida, certa de que ninguém correria hoje. Provavelmente estariam todos trabalhando ou estudando a essa hora. E sua caminhada continuou até seu celular vibrar. Ela havia recebido uma mensagem. Pegou o celular na bolsa e desbloqueou a tela, mas antes que pudesse ver ao menos quem havia enviado a mensagem, foi surpreendida com um impacto que a derrubou no chão.
Durante a queda, Débora soltou um grito agudo e estranho, seu celular saltou de sua mão e caiu na parte asfaltada do parque, a bateria do celular caiu na grama. Depois de recuperar a consciência e processar tudo o que aconteceu, Débora percebeu que tinha um ser humano em cima dela, a impedindo de levantar.
- Mas o que...? - Ela disse. - Dá pra sair de cima de mim? - Gritou dessa vez.
- Me desculpa. - O menino disse enquanto se levantava, estendendo a mão para Débora logo em seguida.
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Sam apressou-se em levantar e estender a mão para a menina que permanecia caída no chão. Ela a ignorou e levantou-se sozinha. Sam, por sua vez, recolheu sua mão discretamente.
- Você devia olhar por onde anda. - A menina disse, claramente aborrecida.
- Eu já pedi desculpas.
- Desculpas não irá fazer meu joelho parar de doer. - Ela disse limpando ao redor da ferida que se formou em seu joelho, erguendo a cabeça em seguida.
Sam congelou quando viu aquele par de olhos castanhos, o nariz fino, os lábios delicados. Aquele rostinho de boneca era inconfundível. Seu sangue fervia como mil sóis. Ele queria tê-la em seus braços de novo. Queria sua morena, sua baixinha.
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Débora não acreditou no que seus olhos viram. Seu coração batia tão forte que parecia que saltaria para fora a qualquer momento. Não poderia ser ele, poderia? Já fazia tantos anos... Não era possível que ele tivesse voltado logo agora. Mas mesmo assim, pensar que poderia ser ele lhe dava um misto de felicidade e animação. Ela tinha vontade de lançar seus braços ao redor de seu pescoço, o abraçar e nunca mais deixa-lo ir. Mas a questão era: se fosse realmente ele, será que ele se lembraria dela? Ela não queria passar por esse constrangimento, por mais que doesse a possibilidade de deixar o amor da sua vida ir embora novamente.
O mesmo se passava na cabeça de Sam: e se ela não se lembrar mais de mim? E se ela lembrar, mas me odiar por ter ido embora sem avisar, por não ter dado notícia? Ele não queria passar por esse desapontamento.
Então, ficaram ambos parados, com os olhos fixos um no outro, pensando se deveriam ou não dizer alguma coisa, ou se deveriam simplesmente voltar a andar como se nada tivesse acontecido. E, por fim, a segunda opção prevaleceu. Sam continuou seu caminho para a faculdade, ainda que sua cabeça estivesse na menina de cabelos castanhos. E Débora seguiu o caminho contrário de Sam. Tomaram caminhos opostos, mas o sentimento era o mesmo: arrependimento. Arrependimento de não ter aproveitado a oportunidade, por ter deixado o orgulho falar mais alto.
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