- Moça, apenas me escute, por favor. - o homem calmamente disse pelo telefone.
- Eu não tenho nada o que escutar. Acabou. - ela disse, o impedindo de continuar falando. Sua voz embargada e falha por causa do choro.
- Tudo bem. Tudo bem. - ele mantinha a voz num tom reconfortante e a respiração controlada, como fora instruído. - Você pode me contar o porquê de estar fazendo isso?
- Não vejo como isso vai ajudar.
- Acredite em mim. Às vezes, falar é tudo o que precisamos. - ela suspirou.
Uma brisa de verão bagunçou seus cabelos cor-de-cobre. Ela olhou para baixo. Dezenas, talvez centenas, de pessoas a olhavam e diziam coisas umas para as outras. Coisas que ele não podia ouvir, pois estava na sacada de seu prédio, no 20° andar.
O homem, embora nervoso, não insistiu em seu pedido. Esperava que ela quebrasse o silêncio, pois sabia que era um momento difícil para a mesma, e não podia pressioná-la a fazer nada. Teria que fazer tudo com a maior calma e paciência possíveis.
- São muitas coisas. - ela disse finalmente. - Quer dizer, sempre foram muitas coisas. Mas parece que tudo resolveu pior de uma vez só.
Essa frase o fez lembrar de uma frase que leu em um livro: “o universo quer ser notado”. Ele pensou em citar a frase, mas achou melhor não interromper.
- As coisas ficaram realmente ruins - ela continuou - quando eu me mudei para esse apartamento: meu pai, que estava mal há bastante tempo, descobriu que tem câncer, perdi meu emprego, meu namorado terminou comigo, estou cheia de contas pendentes e prestes a ser despejada. E isso é só a ponta do iceberg. - sua voz saía ainda mais embolada agora que as lágrimas caíam freneticamente.
- Entendo perfeitamente, mas…
- Entende? - ela perguntou sarcasticamente. - Você não passou pelo que estou passando para entender metade do que estou sentindo. - O homem respirou fundo pelo nariz e soltou todo o ar pela boca.
- Se me permite perguntar, quantos anos a senhorita tem? - ele indagou após alguns segundos de silêncio.
- Vinte… Vinte e três. - gaguejou.
- Moça, pela estrada que você está passando, eu já fui e voltei várias vezes. Sei bem o que está sentindo.
- E conseguiu enfrentar tudo isso com essa calma? - ele soltou um risinho fraco.
- Não. Claro que não. Eu sou ser humano, assim como todo mundo, moça. Teve momentos em que eu me desesperei, mas eu não desisti tão fácil. Eu lutei e consegui vencer.
- Isso está parecendo discurso para pessoas deficientes. - ambos riram. - Mas, de qualquer forma, eu não sou tão forte assim. Não sou forte o bastante para lutar contra o universo. Não sozinha.
- Por que não conta com seus amigos. sua família?
- Que amigos? Que família? - ela disse. Pela sua voz, era perceptível que havia recomeçado a chorar. - Eu perdi todos.
O homem pensou por um momento. Sabia que o que estava prestes a dizer, por mais que fosse verdade, soaria estranho. E ele não queria assustá-la. Mas, mesmo assim, disse:
- Você tem a mim agora.
A menina ficou surpresa, claro. Ele era um completo desconhecido. Era apenas um homem fazendo seu trabalho: impedí-la de se matar. Em nenhum momento passou pela sua cabeça que, talvez, ele dissesse isso para todos que tentasse salvar. Não, ela não se importava que não fosse a única que ouviu aquelas palavras. Ela só se importava com o fato de ter recebido aquelas palavras. Mas, ainda assim…:
- Isso não importa agora.
- Moça, me…
- Não. Me desculpe, mas eu não posso continuar com isso.
- Só me escuta, por favor. Desce daí, deixa eu te levar pra um café. Prometo te ouvir e tentar te ajudar no que eu puder.
A menina sorriu em meio as lágrimas. Era tão bom sentir-se importante para alguém. Por um momento pensou que a vida poderia ser diferente, melhor. Mas esse momento foi breve demais.
- Promete que se lembrará de mim? - ela perguntou.
- Não. Espera, por favor.
- Promete?
Ele não conseguiu dizer mais nada. Sua garganta estava fechada, seus olhos ardiam e sua respiração ficou desregulada. Ele sabia que tinha perdido mais uma pessoa.
- Prometo.
- Não fique triste, moço. Todos vamos cair um dia.
Tudo o que ouviu depois disso foram gritos ao longe e um barulho parecido com o que ouvímos, quando colocamos um microfone em frente a um ventilador ligado, ou com um celular em queda livre. Mas, da parte da menina, não se ouviu nenhuma grito, nenhum gemido, nada. Ouviu um barulho de sirene e, logo após, algo como um baque. Então ele soube que ela já não estava mais aqui.
Conto baseado na música Amianto - Supercombo. Postado também em: http://www.wattpad.com/55166562-just-words-amianto.
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